domingo, 13 de março de 2011

viro-me e reviro-me

'' Adormeço a custo, acordo do nada, viro-me, reviro-me, primeiro o corpo depois a cabeça, os pés empurram-se um ao outro no fundo da escuridão que não suporto, por isso levanto-me, os pés tocam o chão frio e encolhem-se, vou à janela e puxo os estores devagar, primeiro uma fresta, depois duas, três, sete, doze até a luz do candeeiro da rua iluminar o quarto, quem me mandou morar num segundo andar com a puta da lâmpada mesmo de chapa para os meus olhos, mas quando se compra uma casa nunca se vêem estes pormenores, como por exemplo o contador da água do vizinho nas escadas a paredes-meias com o meu quarto a estrelar-me a paciência, as rachas no chão da varanda ou a lareira que afinal não fuma e me enche a casa de um pó nojento que me põe logo com um ataque de asma.
Com o movimento da persiana, as cortinas estremecem, solta-se o pó daninho que me sobe pelas narinas e desato a tossir, doem-me as costas, doem-me as pernas, tenho frio e sono e, por isso, volto para a cama à espera do torpor que não vem desde que voltaste para casa dela e afinal decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo, ela que tem dois filhos e nem sabes se são teus; o mais velho deve ser, tem o teu nariz e as tuas sobrancelhas, mas o mais novo é tão diferente, coitadinho, parece que saiu numa barraca da Feira Popular, tum, tum, acertei no alvo com as espingardas todas, sou o maior, tome lá este menino que é o prémio para quem tem tão boa pontaria, diz a senhora que não cabe atrás do balcão, que é viúva e quando o marido se cansou das farturas e pasou-as à Joaquina, agora é a Joaquina que incha da manhã para a tarde, ela diz que não come, que fica assim só de estar ali a fritar e tu trouxeste o menino para casa, isto sou eu a delirar acordada enquanto o sono não chega, a tosse não pára, no tecto do quarto os faróis dos carros reflectem-se em listas de luz e eu só me lembro da minha mãe a dizer olha que ele não presta, homem casado é uma praga, põe-no a andar antes que ele te dê cabo da vida.
Vida? Qual vida, penso eu deitada na cama, vida tinha eu quando vivias comigo, fazia-te um bife do lombo com batatas fritas e ovo a cavalo que te encostava às boxes em três tempos, esparramavas-te no sofá a esvaziar os miolos em frente ao televisor e, cada vez que o Benfica jogava, abrias uma lata de Superbock e desenterravas do roupeiro um cachecol ranhoso e surrado e foi assim que aprendi o que era um canto, um livre e um fora de jogo.
Livre e fora de jogo estou eu agora, desde que decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo, mas tu nunca soubeste o que era ser feliz, por isso é que te foste embora, não me sais da cabeça, estúpido, imbecil, cobarde, idiota, egoísta, odeio-te e amo-te, amo-te e odeio-te, por isso um dia deste acordo e arranjo uma maneira de a cortar, mas primeiro corto o coração que é para me esquecer como dói o amor.
ay como duele el amor
lembras-te da música? A gente a dançar em Puerto Plata naquele hotel tão lindo mesmo junto ao mar, bungallows para brincar às casinhas, depois levaste-me para a praia e fizemos amor ali mesmo, ainda sinto a tua carne cá dentro, já lá vão seis meses, era o que faltava, além de não me saíres da cabeça também me ficaste no corpo.
Mas um dia destes, com ou sem cabeça, com ou sem coração, vou conseguir acordar sem pensar em ti durante três minutos e depois adormecer outra vez, sem que nada me acorde e então vou sonhar outra vez com a barraca dos tiros onde não há bonecos espalmados com um alvo no sítio do coração, mas tu, tu e ela, de carne e osso, tum, tum eu atiro e vocês morrem e a senhora que está atrás do balcão pisca o olho à Joaquina e diz-me tome lá os meninos que são o seu prémio e então eu pego nos catraios, vou direitinha às farturas empanturrar-me de sonhos e fico ali a vê-los a engordar como a Joaquina e nesse momento, entre o êxtase da gula e o absurdo da visão dos pequenos a incharem como dois balões e desapareceram pelos ares atrás da Roda Gigante, talvez nesse momento me saias da cabeça e desapareças da minha vida para sempre. ''

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